Aprendendo a Ser Criança

Quem me conhece um pouco mais de perto, sabe que eu nunca gostei de ser criança. Sempre achei um tédio. Tudo bem, brincar de pega-pega era bom. De esconde-esconde, também. Ah, e os vídeos games... Mas na maior parte do tempo, eu ficava olhando a rua pela janela do quarto dos meus pais. De dia, observava os passarinhos nas árvores, os gatos e os cachorros de rua, os mendigos revirando o lixo, as pessoas caminhando apressadas e absortas, andando de bicicleta, de carro, de avião. Tudo era vida, tudo pulsava, mas eu estava ali, trancada em um corpo infantil, pequeno e ingênuo. Queria fazer tudo o que uma mente inocente poderia ter vontade de fazer: acabar com a fome, com a miséria e com o desprezo no mundo. A impotência me corroía. À noite, da mesma janela, contemplava o céu. Chorava muito, de saudades, não sei bem do quê. As nuvens e as estrelas eram os meus verdadeiros refúgios. Indagava, desde muito cedo, os motivos de estarmos nesse mundo, e não, em outro. Quem era o Sol? E a Lua? São perguntas que ficaram um pouco para trás, junto com o telescópio do meu pai.


Um dia, minha mãe estava cortando as unhas das minhas mãos com uma tesourinha. Nessa época, eu devia ter uns oito anos. Eu admirava as unhas da minha irmã mais velha, que eram longas e muito finas. Então, criei coragem e perguntei: “Mãe, quando é que eu vou poder ter as unhas compridas?”. Ela respondeu, com toda a calma, a sabedoria que trago comigo até hoje: “Assim que tu mesma conseguires cuidar delas”.

              
A lição da responsabilidade foi apreendida naquele exato momento da trajetória da minha infância e tudo começou a fazer sentido. Aos poucos, fui descobrindo habilidades que eu nem sabia que possuía. Porque achava minha caligrafia feia, por exemplo, dediquei minhas férias a dar um jeito nisso. Peguei um caderno de caligrafia e, sozinha, treinei durante todo um veraneio. Melhorei muito. Melhorei tanto que comecei a desenhar capas de trabalhos escolares com fontes góticas e a desenhar lindos mapas com caneta nanquim. E com a mesma disposição - que descobri haver em profusão dentro de mim - resolvi acabar com a minha gagueira.

                
Sim, eu fui gaga dos cinco aos nove anos. Quem me conhece hoje, não acredita. Sempre me perguntam como eu consegui me curar. A resposta é sempre a mesma: eu não me curei da gagueira, apenas aprendi a controlar o que parecia incontrolável. Era um sofrimento pronunciar coisas simples, como o meu próprio nome ou completar uma frase sem trancar nas palavras. As palavras existiam na minha mente, mas por alguma razão, eu não conseguia pronunciá-las. Naquela época, ninguém achava que eu precisava de um fonoaudiólogo. Acho quem nem sabiam da existência desse especialista. Todos achavam graça da minha gagueira enquanto eu sofria calada, literalmente.

                
Outro dia, na quarta série do primário, senti medo de ser chamada para responder às questões orais e de gaguejar na frente dos colegas. Lembro claramente de a professora lançar uma pergunta para a turma e de pairar os olhos sobre mim. No mesmo instante, baixei minha cabeça. Não podia responder à pergunta, mesmo sabendo a resposta. O medo cedeu lugar à vergonha. E foi essa vergonha que me fez tentar controlar os pensamentos, as emoções, a fluência da fala e a dicção das palavras. Em casa, comecei a ler textos e a recitar poesias, sozinha e em voz alta. Mais tarde, aprendi a controlar também a afinação e a força da voz. Pra quem não conseguia pronunciar o próprio nome sem tropeçar, cantar obras de Haendel, Bach e Beethoven foi algo fantástico que fiz por mim mesma.

               
Hoje venho aprendendo a falar o necessário, o verdadeiro e o justo, de maneira simples e sem machucar ninguém. Já não tenho mais a pretensão de acabar com o mal no mundo, pois compreendi o provérbio que diz “não há mal que sempre dure nem felicidade que jamais acabe”. Afinal, essa é a filosofia do I CHING, o Livro das Mutações, que estuda os 64 estados manifestados da natureza no decorrer do tempo. O I CHING diz que, se você está triste, já pode começar a sorrir, pois a tendência é de que as coisas melhorem. Mas se você está feliz, é hora de começar a se preocupar, pois a tendência é de que as coisas piorem. A grande questão que se ergue é saber qual é a atitude correta a ser tomada em cada uma dessas ocasiões, tanto para diminuir a duração e a intensidade dos tempos ruins, quanto para que haja um equilíbrio no aprendizado das nossas experiências, sem traumas.

               
Ficarei satisfeita se, no final da vida, eu ainda tiver a mesma disposição da infância de enfrentar os desafios e a mesma sabedoria para suportar os obstáculos, sem baixar a cabeça. No fim, ainda estou aprendendo a ser criança.

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Deixo aqui a recomendação de um filme impressionante, disponível no Netflix, chamado “Mãos Talentosas”. Ele conta a história real um menino norte-americano, negro e pobre, que se achava incapaz de aprender qualquer coisa na escola e que se tornou, com o incentivo de sua mãe, o mais conceituado neurocirurgião pediátrico do mundo. Essa comovente história serve de exemplo para nunca desistirmos de realizar o nosso melhor a cada dia, superando o bullying, a condição social, a depressão e a descrença em nós mesmos. 


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